G1
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As mãos que antes portavam algemas na Fundação Casa, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, hoje guiam jovens em cumprimento de medidas socioeducativas. Guilherme Nóbrega, um ex-interno da instituição, encontrou na experiência do passado a força para inspirar e transformar vidas.

Aos 33 anos, o conselheiro tutelar da cidade de Jaci carrega consigo uma história de superação. Aos 15 anos, Guilherme foi apreendido e passou mais de um ano internado na Fundação Casa por envolvimento em um roubo. Na cela, dividida com outros sete adolescentes, a vivência se tornou um período de aprendizado e reflexão. Ali, ele fez uma promessa: mudar sua trajetória.

“Ser conselheiro tutelar hoje é poder dar continuidade naquilo que eu prometi um dia: cuidar, dar conselho, ver de perto a realidade e, quem sabe, com a minha história, inspirar, mudar, mostrar que realmente existe um outro lado”, compartilha Guilherme, destacando que vê sua função como uma missão de vida.

Após 18 anos, o retorno à Fundação Casa evoca um sentimento de “dever cumprido”. A sensação é de quem estabeleceu um propósito e o concretizou: retornar para compartilhar seu testemunho de transformação. “Passa um filme pela cabeça da gente. É o lugar onde eu prometi para mim mesmo e hoje está acontecendo, de uma forma talvez inusitada. Acredito muito em Deus, e que ele sempre tem um propósito na vida da gente”, reflete.

A unidade da Fundação Casa em Rio Preto abriga atualmente 77 adolescentes, um número que cresceu nos últimos seis meses, impulsionado pelo tráfico de drogas. Entre eles, cinco cumprem medidas socioeducativas por homicídio, alguns envolvidos em disputas entre grupos rivais.

Dados revelam que, desde o ano anterior, a Polícia Civil apreendeu 11 menores envolvidos na disputa por territórios do tráfico. Além disso, dez foram baleados e quatro perderam a vida.

Um dos adolescentes entrevistados atribui o envolvimento no crime à falta de perspectivas. “Você entra nisso daí porque não pensa no futuro. Não pensa nas suas atitudes e no que pode acontecer depois”, relata.

A lei estabelece um período máximo de três anos de internação na Fundação Casa, com avaliações a cada seis meses. Entre os internos, há reincidentes que, após receberem a liberdade, retornaram ao mundo do crime. “Eu fazia sem pensar no meu futuro, não pensava. Porque quando eu saí a primeira vez, eu só pensava em sair. Não pensava direito no meu futuro, no meu trabalho, em trabalhar”, confessa um dos jovens.

Na Fundação Casa, os adolescentes recebem acompanhamento de 120 profissionais, com acesso à educação regular, cursos profissionalizantes, esportes e projetos culturais, visando a ressocialização. Anualmente, a instituição promove um evento para valorizar o talento artístico dos jovens e fortalecer o acesso à cultura, incentivando a expressão através da dança, música, teatro e poesia.

Emocionada, uma mãe, presente em uma das apresentações, expressa sua crença na recuperação do filho. “Esses trabalhos que eles fazem vão acolhendo eles, vão fazendo eles se sentirem melhor, é muito importante, é muito bom o que eles fazem aqui. Eu acredito, porque se eu não acreditar, quem vai acreditar?”, declara.

A Vara da Infância e Juventude acompanha de perto o processo de cada adolescente na Fundação Casa. Uma promotora explica que a falta de estrutura familiar e a ausência de políticas públicas contribuem para que os jovens se envolvam com o crime. “Um adolescente fora da escola, morando em lugares mais desfavoráveis, que não tem a estrutura de política pública acabam ficando na rua e aí eles acabam sendo acolhidos pelos traficantes. E o tráfico acaba sendo porta para os outros atos infracionais, que aí é a briga de gangues, disputa de pontos de tráfico de drogas”, explica.

Em Rio Preto, menores de 12 anos envolvidos em atos infracionais e seus pais ou responsáveis são encaminhados aos conselhos tutelares. Um dos conselhos da cidade acompanha 38 mil famílias, sendo que 10% delas têm menores envolvidos em atos infracionais.

Fonte: g1.globo.com