O ano de 2025 ficará marcado na memória da cultura nacional pelas profundas perdas na música brasileira. Artistas de diversas gerações e gêneros nos deixaram, criando um vazio que parece impossível de preencher. De vozes poderosas a instrumentistas revolucionários e compositores visionários, o cenário musical perdeu talentos singulares, cuja contribuição ecoará por muito tempo. A flautista Odette Ernest Dias, a cantora Nana Caymmi, o mestre Hermeto Pascoal e a carismática Preta Gil estão entre os nomes que partiram, confirmando a verdade de que, para a arte, alguns são verdadeiramente insubstituíveis. Suas obras, no entanto, permanecem vivas, testemunho da genialidade e paixão dedicadas à nossa rica cultura.
Vozes marcantes e legados culturais
A emoção nas melodias de Nana Caymmi e Angela Ro Ro
O panorama da música popular brasileira foi profundamente impactado pela despedida de vozes que, de formas distintas, souberam traduzir a alma do país. Em 1º de maio, aos 84 anos, a grandiosa Nana Caymmi (1941 – 2025) saiu de cena, deixando para trás um legado vocal que transcendeu gerações. Conhecida por uma voz encharcada de sentimento, que parecia brotar das profundezas da alma, Nana construiu sua própria identidade artística, independente da sombra de seu pai, o gigante Dorival Caymmi. Sua interpretação única e emocionante permanece como referência para a canção brasileira.
Em 8 de setembro, calou-se a voz rouca e visceral de Angela Ro Ro (1949 – 2025). Aos 75 anos, a cantora, compositora e pianista deixou um repertório de canções ardentes, nascidas na fogueira das paixões e das experiências mais cruas da vida. Sua autenticidade e a capacidade de expressar a alegria e a tristeza, especialmente as dores do amor, a tornaram uma figura ímpar. Ro Ro é, sem dúvida, um desses nomes insubstituíveis, cuja arte tocou a essência de muitos ouvintes.
O adeus a ícones do samba: Arlindo Cruz, Bira Presidente e Cristina Buarque
O samba, um dos pilares da cultura musical brasileira, também chorou a partida de mestres. Em 8 de agosto, aos 66 anos, o bamba Arlindo Cruz (1958 – 2025) entristeceu as rodas e os corações. Embora já estivesse afastado dos palcos desde março de 2017 devido às sequelas de um AVC hemorrágico, seu impacto no gênero foi imensurável. Arlindo tomou partido do samba da melhor qualidade, aquele produzido nos quintais mais nobres do Rio de Janeiro, onde a essência da festa e da poesia se misturam.
Desses mesmos quintais brotou a maestria de Bira Presidente (1937 – 2025), um dos fundadores do lendário grupo Fundo de Quintal. Sua habilidade singular no toque do pandeiro marcou época e influenciou gerações de percussionistas. Bira faleceu em 14 de junho, aos 88 anos, deixando um vácuo no samba de raiz.
Em 20 de abril, aos 74 anos, partiu Cristina Buarque (1950 – 2025), uma verdadeira pescadora de pérolas do samba da antiga. Seu legado inestimável reside nos discos referenciais que lançou, repletos de joias raras do gênero. Para um público específico e apaixonado, Cristina jamais foi apenas “a irmã de Chico Buarque”, mas sim a guardiã de um tesouro musical, uma intérprete com sensibilidade única para resgatar e preservar a riqueza do samba.
Preta Gil e a bandeira da diversidade
A precocidade e a força de uma artista única marcaram a partida de Preta Gil (1974 – 2025) em 20 de julho, aos 50 anos, em decorrência de complicações de um câncer colorretal. Preta deixou um rastro de alegria e vitalidade na música brasileira, mas também fez o país chorar com sua ausência. Mais do que uma cantora, ela se tornou uma personalidade potente, por hastear a bandeira da diversidade em um Brasil que ainda luta contra a misoginia e a exclusão. Sua voz e sua presença eram um grito de celebração da vida e da autenticidade, e seu legado como defensora da inclusão permanece mais vivo do que nunca.
Mestres da inovação e da criação
A genialidade de Lô Borges e Jards Macalé
A música brasileira também se despediu de criadores que moldaram paisagens sonoras e poéticas. Em 2 de novembro, aos 73 anos, partiu Lô Borges (1952 – 2025), um dos pilares do Clube da Esquina. Seu talento para criar melodias e harmonias requintadas alicerçou um dos movimentos mais importantes da MPB na década de 1970. Lô se foi com a chama da criação ainda viva, a ponto de ter deixado praticamente pronto um álbum com canções inéditas, letradas por seu irmão Marcio Borges, poeta fundamental da turma das Geraes. Sua capacidade de invenção era singular.
Assim como existiu somente um Jards Macalé (1943 – 2025), o “anjo torto” da MPB, que bateu asas em 17 de dezembro, aos 82 anos. Macalé construiu uma obra à margem do mainstream, na penumbra reservada aos marginalizados, aos amaldiçoados pelo sistema, aos gênios transgressores. Sua música, por vezes desafiadora e sempre original, é um testemunho de liberdade criativa e de um olhar aguçado sobre o Brasil.
Hermeto Pascoal: o bruxo dos sons
O mundo da música instrumental perdeu um de seus maiores ícones em 13 de setembro, com a partida de Hermeto Pascoal (1936 – 2025), aos 89 anos. Conhecido como “O Bruxo”, Hermeto era um instrumentista que transcendia conceitos, gêneros e rótulos. Sua intuição assombrosa, sua técnica efervescente e sua permanente ebulição criativa o levaram a tirar sons de onde menos se esperava, transformando objetos cotidianos em instrumentos musicais. Ele dedicou sua vida ao exercício permanente de fazer música, deixando um legado de experimentação e inovação que o eterniza na galeria dos insubstituíveis.
Outras estrelas que se foram em 2025
De instrumentistas a compositores: a amplitude das perdas
A lista de perdas em 2025 foi longa e dolorosa, atingindo diversas áreas da música brasileira. Na véspera do Natal, em 24 de dezembro, a flautista Odette Ernest Dias (1929 – 2025) engrossou a relação de despedidas. Nascida na França e radicada no Brasil desde os 23 anos, Odette integrou a Orquestra Sinfônica Brasileira e foi uma das fundadoras do renomado Clube do Choro de Brasília, deixando uma marca indelével na música instrumental brasileira.
O ano também lamentou a partida de outros talentos importantes, como o compositor Antonio Barros, autor de sucessos associados ao forró; o versátil cantor Edy Star; o virtuoso violonista Félix Junior; a doce voz da cantora Lilian Knapp; o ícone da música romântica Lindomar Castilho; a prestigiada cantora lírica Maria Lúcia Godoy; a talentosa Maricenne Costa; o compositor Marquinho PQD; o renomado compositor e produtor Mauro Motta; o letrista Mauro Santa Cecília; o pianista Miguel Proença; a DJ Peppa Oliveira; o guitarrista e produtor Perinho Albuquerque; o guitarrista Rogério Meanda; a cantora Sonia Delfino; o guitarrista Toninho Crespo; o cantor e compositor Vital Farias; e o percussionista Zero Awá. Cada um desses artistas, à sua maneira, deixou uma contribuição valiosa para a riqueza e diversidade da música do Brasil.
Um legado eterno na música brasileira
As perdas que a música brasileira sofreu em 2025, embora dolorosas, servem para reafirmar a imortalidade da arte e o impacto duradouro de seus criadores. Cada artista que partiu deixou uma obra viva, um testemunho de paixão, talento e dedicação. A ausência física é sentida, mas suas vozes, suas melodias e suas mensagens continuarão a ecoar, inspirando novas gerações e enriquecendo a tapeçaria cultural do Brasil. Eles demonstraram que, em muitos casos, o vazio deixado por certos talentos é, de fato, impossível de ser preenchido, mas suas contribuições permanecem como pilares inabaláveis da nossa identidade musical.
Perguntas frequentes sobre as perdas na música brasileira em 2025
Quem foram alguns dos principais artistas que faleceram na música brasileira em 2025?
O ano de 2025 marcou a despedida de grandes nomes como a cantora Nana Caymmi, a artista multifacetada Angela Ro Ro, o sambista Arlindo Cruz, o mestre instrumentista Hermeto Pascoal, o criador do Clube da Esquina Lô Borges e a carismática Preta Gil, entre muitos outros.
Qual o impacto dessas perdas para a cultura musical brasileira?
O impacto é profundo e, em muitos casos, representa a perda de vozes e talentos considerados insubstituíveis. Embora deixem um vazio, seus legados artísticos permanecem vivos e continuam a enriquecer e influenciar a música brasileira, perpetuando suas obras para as futuras gerações.
Algum dos artistas falecidos deixou trabalhos inéditos póstumos?
Sim, o compositor e instrumentista Lô Borges, um dos pilares do Clube da Esquina, deixou um álbum de canções inéditas praticamente pronto, com letras de seu irmão Marcio Borges. Este trabalho póstumo demonstra a vitalidade criativa do artista até seus últimos dias.
Qual a relevância de Preta Gil na música brasileira além de sua carreira como cantora?
Preta Gil transcendeu a figura de cantora para se tornar uma importante personalidade e ativista. Sua presença e voz foram cruciais na defesa da diversidade, da autoaceitação e do empoderamento, especialmente em um contexto de luta contra a misoginia no Brasil, deixando um legado social significativo.
Convidamos você a revisitar a obra desses grandes artistas, mantendo viva a chama da música brasileira. Explore suas discografias e descubra o legado que eles deixaram para as futuras gerações.
Fonte: https://g1.globo.com