Em um mundo cada vez mais digital, o encanto e a profundidade de um sebo permanecem como portais para o passado, oferecendo uma imersão tangível em diferentes épocas e conhecimentos. No coração de Jundiaí, interior de São Paulo, um desses estabelecimentos se destaca não apenas pela paixão de seu idealizador, Maurício Ferreira, mas pela grandiosidade e diversidade de seu acervo, consolidando-se como um dos maiores espaços de colecionismo do Brasil. Mais do que uma livraria de segunda mão, este local é um verdadeiro guardião de histórias e memórias.
O Berço de um Sonho Colecionista
A trajetória por trás do sebo de Jundiaí é tão rica quanto seus corredores. Maurício Ferreira, professor universitário e colecionador desde a infância, cultivou desde cedo um fascínio por objetos que carregam significado. Sua paixão foi catalisada durante a adolescência, quando, como office boy em São Paulo, descobriu o universo dos sebos da capital. A possibilidade de adquirir livros a preços acessíveis, em um tempo de recursos limitados, transformou sua percepção e acendeu o desejo de replicar essa experiência em sua própria cidade.
Foi a partir desse encantamento e da ausência de um local similar em Jundiaí que nasceu a semente de um sonho. Em 2002, esse desejo se concretizou com a abertura do sebo na Rua Dr. Torres Neves, no Centro da cidade. Ao longo de 25 anos, o espaço evoluiu para ocupar três andares, cuidadosamente organizados por uma equipe selecionada a dedo por Maurício, que exige de seus colaboradores a mesma paixão inabalável pela leitura e pelo conhecimento que o impulsiona.
Um Acervo Monumental: Mais que Livros, Relíquias da Cultura
O que começou como um refúgio para amantes de livros transformou-se em um colossal repositório de colecionáveis. Maurício Ferreira estima que o acervo total se aproxima de 1 milhão de itens, com impressionantes 200 mil livros e 100 mil gibis já catalogados para venda. Essa vasta coleção abrange desde edições raras do século XIX, notáveis por sua preservação impecável, até discos autografados e uma infinidade de outros objetos que transcendem o conceito tradicional de livraria.
A ambição de Maurício vai além da comercialização. Planos futuros incluem a criação de um museu da infância, dedicado a expor uma coleção de mais de 3 mil brinquedos, e a abertura de um antiquário, que exibirá outras coleções. Essas iniciativas demonstram a visão de que o colecionismo é uma ferramenta essencial para a manutenção e o acesso à cultura, e o sebo se estabelece como um epicentro onde essa riqueza cultural pode ser explorada e apreciada por todos.
A Filosofia do Sebo: Fomentando a Cultura e o Conhecimento
Para Maurício, o sebo transcende a mera transação comercial; ele é um agente de circulação cultural. Ele defende que o espaço serve como um concentrador de conhecimento, onde jovens podem aprender sobre educação financeira ao negociar preços, desenvolver a curiosidade explorando diferentes gêneros e, acima de tudo, se conectar com o prazer da leitura. A democratização do acesso a livros, inclusive com exemplares vendidos a preços simbólicos como R$ 1, é um pilar dessa filosofia, visando eliminar barreiras financeiras à cultura.
O professor universitário expressa imensa satisfação em participar, mesmo que indiretamente, da formação de novos leitores. Testemunhar a alegria de jovens adquirindo e se aprofundando em um livro é, para ele, uma recompensa inestimável, que valida todo o esforço e paixão dedicados ao projeto. A oportunidade de folhear um livro, lê-lo em partes e, eventualmente, conclui-lo, cria uma experiência única e prazerosa que os sebos, como o de Jundiaí, continuam a proporcionar.
Neguinha, a Guardiã Felina da História
Entre os muitos tesouros e histórias que habitam o sebo, há uma presença especial que cativa a todos: Neguinha, a gata que há cinco anos é a mascote oficial e 'secretária' da loja. Com seus hábitos peculiares – de guardar a porta durante o dia a explorar os telhados vizinhos à noite –, Neguinha tornou-se parte integrante da experiência, acolhendo clientes e zelando pelo espaço de sua maneira única.
A adoção da gata pelo sebo, como Maurício gosta de contar, é uma história curiosa que remete a práticas antigas. Ele faz um paralelo com as bibliotecas históricas que, na ausência de métodos sanitários modernos, mantinham gatos para controlar pragas que poderiam danificar os valiosos acervos. Essa conexão histórica adiciona uma camada de charme e autenticidade à presença de Neguinha, reforçando a ideia de que o sebo é um espaço onde o passado e o presente se entrelaçam de formas inesperadas e encantadoras.
O Sebo do Maurício em Jundiaí é um testemunho vivo do poder duradouro do livro e do colecionismo. Longe de ser apenas uma loja, é um centro cultural pulsante que inspira a curiosidade, fomenta a educação e preserva a história através de seus milhões de itens. É um convite aberto para todos que buscam sentir, tocar e se maravilhar com as respostas e as perguntas que o mundo físico, em suas formas mais diversas, ainda tem a oferecer, mantendo a chama do conhecimento e da descoberta acesa para as próximas gerações.
Fonte: https://g1.globo.com

