A primeira audiência pública consultiva, promovida pela prefeitura de São Paulo e o governo estadual para discutir a implantação de uma Unidade de Recuperação de Energia (URE) de resíduos, popularmente conhecida como incinerador de lixo, no bairro de Perus, na zona norte da capital paulista, foi marcada por sérias acusações de fraude. Moradores locais afirmam ter sido sistematicamente excluídos do debate, enquanto um grande número de pessoas estranhas à comunidade teria sido recrutado para manipular o evento, visando desmobilizar a forte oposição ao empreendimento.
A Suspeita de Manipulação e a Exclusão dos Cidadãos
As denúncias surgiram logo no início da tarde da última segunda-feira (1º), quando ônibus pararam em frente ao Centro Educacional Unificado (CEU) Perus, no bairro Vila Fanton. Dezenas de passageiros, não reconhecidos pelos residentes do distrito, formaram longas filas e rapidamente preencheram a capacidade máxima do auditório, inscrevendo-se para discursar. O objetivo, segundo apuração, seria impedir que os moradores de Perus tivessem acesso ao microfone para expressar suas críticas e questionamentos sobre o projeto.
A alegação de manipulação ganhou força com o depoimento de uma pessoa que confirmou ter recebido pagamento para comparecer à audiência e se passar por moradora da região. Ela relatou que, há cerca de três anos, busca trabalho em grupos especializados em formar plateias para programas de auditório televisivos. Além disso, foi instruída por um coordenador sobre quais reações — de suposta concordância ou reprovação — deveria manifestar em diferentes momentos da audiência, em uma orquestração para influenciar a percepção do debate.
O resultado direto dessa suposta tática foi a impossibilidade de cerca de 500 moradores de Perus acessarem o teatro do CEU. Mesmo com a instalação de dois televisores no salão de entrada por funcionários das gestões municipal e estadual, o espaço não comportou a totalidade dos presentes, forçando muitos, incluindo crianças, a aguardar sob a chuva, sem condições dignas de participação.
O Polêmico Projeto da URE Bandeirantes e a Resistência Local
O projeto em questão, oficialmente denominado Unidade de Recuperação de Energia (URE) Bandeirantes, é de responsabilidade da empresa Logística Ambiental São Paulo S.A. (Loga), especializada no tratamento de resíduos de saúde. A companhia tem encaminhado seus estudos e documentos para a aprovação da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).
Contudo, a comunidade de Perus e líderes de resistência expressam profunda preocupação com a URE. O engenheiro químico Mario Bortoto, uma das lideranças do movimento, aponta que a tecnologia de incineradores é considerada obsoleta em outras partes do mundo. As apreensões se concentram não apenas nas cinzas tóxicas que seriam liberadas pelo empreendimento, mas também no significativo aumento do tráfego de caminhões na região, questionando a capacidade da prefeitura de fiscalizar rigorosamente os parâmetros ambientais.
Além das questões ambientais, Bortoto argumenta que a aprovação do incinerador agravaria os já precários serviços de saúde na região, que sofre com a falta de atendimento adequado. Ele correlaciona essa deficiência a um preconceito histórico contra as periferias de São Paulo, que se manifesta na falta de profissionais e equipamentos. A área já enfrenta problemas crônicos de moradia, educação e cultura, com a construção de novos edifícios sem a infraestrutura necessária, perpetuando um ciclo de desafios sociais e assistenciais.
A Luta por Um Espaço Democrático e a Segurança no Evento
Do lado externo do CEU, a presença da Guarda Civil Metropolitana (GCM) era notável, com agentes armados com escudos e gás de pimenta. Há relatos de hostilidade e de proibição da fala de vereadores, embora a assessoria da prefeitura tenha negado o uso de equipamentos de menor potencial ofensivo. Em meio a essa tensão, após muita insistência, três representantes da comunidade Guarani Mbya, da Terra Indígena do Jaraguá, um distrito historicamente ligado a Perus, conseguiram adentrar o local.
A química e consultora da WWF Brasil, Thais Santos, outra líder do movimento, acompanhou desde a adolescência as diversas mobilizações em Perus, que uniram diferentes vertentes religiosas na defesa do território. Ela lamentou que um espaço que deveria ser democrático tenha sido desvirtuado por manipulações, observando ainda que o horário da audiência coincidia com o expediente da maioria dos trabalhadores, dificultando a participação legítima.
Diante da forma como a audiência foi conduzida, Mário Bortoto reforça a importância da consulta pública, que é assegurada por lei, e a necessidade de organizar um novo encontro, desta vez pelos próprios moradores. As lideranças Guarani Mbya também planejam realizar sua própria audiência, buscando garantir que suas vozes sejam ouvidas de forma transparente e democrática neste crucial debate sobre o futuro ambiental e social de Perus.
