G1
Compartilhe essa Matéria

A investigação sobre o audacioso roubo de obras de arte da Biblioteca Mário de Andrade, ocorrido em 7 de dezembro, registrou um avanço significativo com a prisão de uma mulher de 38 anos. A detenção temporária, realizada pela 1ª Central Especializada de Repressão a Crimes e Ocorrências Diversas (Cerco) nesta sexta-feira (19), a coloca sob suspeita de envolvimento no crime que chocou o cenário cultural paulistano. Com esta nova prisão, o número de suspeitos detidos sobe para três, enquanto as autoridades de segurança pública continuam as diligências para elucidar completamente o caso. As treze preciosas gravuras, sendo oito de Henri Matisse do álbum “Jazz” e cinco de Candido Portinari da obra “Menino de Engenho”, continuam desaparecidas, gerando preocupação entre especialistas e amantes da arte. A complexidade do incidente na Biblioteca Mário de Andrade, que envolveu a segunda maior biblioteca do país, revela a vulnerabilidade do patrimônio cultural e a persistência de redes criminosas especializadas.

Prisões e investigações em andamento

As autoridades policiais intensificaram os esforços para desvendar o roubo de arte, resultando na recente prisão da mulher de 38 anos, cuja identidade não foi revelada. Ela é apontada como participante no crime que resultou no desaparecimento de gravuras de valor inestimável. A detenção temporária visa aprofundar as investigações e coletar mais informações sobre a dinâmica do assalto e o paradeiro das obras.

Detalhes das prisões

Antes da prisão mais recente, outros dois homens já haviam sido detidos. Um deles, identificado como Luís do Carmo, conhecido como Magrão, foi preso na capital paulista na quinta-feira (18) e seria um dos responsáveis por planejar a fuga da dupla que efetivamente invadiu a biblioteca. Sua identificação foi possível graças às imagens das câmeras do sistema Smart Sampa, que o flagraram caminhando ao lado de outro suspeito já detido, Felipe dos Santos Fernandes Quadra, carregando as obras roubadas. Felipe Quadra, de 31 anos, foi preso em 8 de dezembro em uma residência na Mooca, zona leste da capital, e sua prisão temporária foi convertida em preventiva em audiência de custódia. O segundo homem que entrou no local durante o assalto, embora identificado, permanece foragido e está sendo procurado ativamente pelas forças de segurança.

Obras de arte desaparecidas

Até o momento, as gravuras de Henri Matisse, do álbum “Jazz”, e as obras de Candido Portinari, do livro “Menino de Engenho”, não foram recuperadas. Essas peças de arte representam um valor cultural e financeiro significativo. Especialistas estimam que o valor de mercado das obras roubadas possa atingir até R$ 1 milhão, o que ressalta a gravidade do crime e a urgência em localizá-las para sua reintegração ao acervo público. As autoridades acionaram a Interpol, indicando a possibilidade de que as obras possam ter sido levadas para fora do país ou integradas a um mercado ilegal internacional de arte.

Relembrando o assalto histórico

O roubo à Biblioteca Mário de Andrade, a maior biblioteca pública de São Paulo e a segunda maior do país, reacendeu o debate sobre a segurança de acervos culturais. O incidente, ocorrido na manhã de 7 de dezembro, um domingo, foi marcado pela ousadia dos criminosos.

A cronologia do crime

Dois homens armados invadiram a biblioteca, localizada no centro da capital paulista. Eles renderam uma vigilante e um casal de idosos que visitava o local, demonstrando desprezo pela segurança e pela presença de público. Em seguida, os assaltantes se dirigiram à cúpula de vidro, um local de destaque da instituição, onde cuidadosamente selecionaram documentos e oito gravuras, acomodando-as em uma sacola de lona. A fuga ocorreu pela saída principal, enquanto vigilantes tentaram alertar policiais militares que patrulhavam a região. Apesar dos esforços, os suspeitos conseguiram escapar sem serem imediatamente localizados. Vídeos de segurança posteriormente divulgados mostraram os ladrões caminhando tranquilamente com as obras roubadas pela rua.

Valor e impacto das obras

As gravuras subtraídas faziam parte da exposição “Do livro ao museu: MAM São Paulo e a Biblioteca Mário de Andrade”. A perda dessas peças de Henri Matisse e Candido Portinari não é apenas financeira, mas representa um golpe para o patrimônio cultural brasileiro. As obras de Matisse, em particular, possuem um histórico de incidentes, o que torna sua segurança ainda mais crítica. A fragilidade demonstrada pelo roubo em um local tão emblemático gerou consternação e levantou questionamentos sobre a proteção de bens culturais em instituições públicas.

Histórico de furtos e a complexa recuperação das obras de Matisse

As gravuras de Henri Matisse do álbum “Jazz” possuem um passado tumultuado, revelando a complexidade da proteção de obras de arte valiosas e o desafio da sua recuperação.

O furto original e a falsificação

Há cerca de duas décadas, entre 2004 e 2006, o álbum “Jazz” de Matisse foi furtado da Biblioteca Mário de Andrade por um funcionário da instituição. Na época, passava por um período de reforma, e o incidente permaneceu despercebido. O ladrão chegou a substituir as obras originais por versões falsas, que circularam sem serem identificadas por um longo período. A fraude só foi descoberta quando a Polícia Federal conseguiu ter acesso às pranchas originais em Puerto Iguazú, na Argentina, em 2011. A investigação da Polícia Federal foi crucial para desvendar a dimensão da fraude. O funcionário envolvido no furto original, que era estagiário na instituição, foi desligado após a descoberta.

A batalha judicial e o retorno à biblioteca

Após a apreensão das obras na Argentina, iniciou-se uma longa batalha judicial pela restituição do material ao Brasil. O álbum “Jazz” permaneceu no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, por quatro anos. Seu retorno à Biblioteca Mário de Andrade, em agosto de 2015, só foi possível após a instituição conseguir provar que possuía as condições de segurança necessárias para abrigar as obras. O professor Luiz Armando Bagolin, ex-diretor da Biblioteca Mário de Andrade, desempenhou um papel fundamental no processo de trazer as obras de Matisse de volta a São Paulo. Ele relatou ter sido informado sobre o desaparecimento das gravuras e sua apreensão pela polícia logo que assumiu a gestão. O professor expressou seu choque com o roubo recente, descrevendo-o como a “profanação” de um local tão importante, levantando sérios questionamentos sobre a segurança na região central de São Paulo.

Falhas de segurança e questionamentos

O recente assalto à Biblioteca Mário de Andrade expôs vulnerabilidades no sistema de segurança, gerando críticas e um debate sobre a proteção de instituições culturais de alto valor.

Reflexões do ex-diretor

Luiz Armando Bagolin, ex-diretor da biblioteca, manifestou profunda indignação com o ocorrido. Para ele, a entrada de uma pessoa armada na biblioteca sem que houvesse alguém do lado de fora para contê-la é um “absurdo”. Bagolin enfatizou que o problema vai além do roubo das obras de Matisse; trata-se da profanação de um espaço cultural icônico, localizado a poucos metros da prefeitura, no coração da cidade. A falta de perseguição aos ladrões após o crime sugere “alguma coisa muito errada”, segundo ele, que acredita no potencial do serviço público, mas lamenta as falhas evidentes neste caso.

Medidas de segurança atuais

Em resposta às críticas e ao histórico de incidentes, a Secretaria da Cultura informou que a Biblioteca Mário de Andrade conta, atualmente, com um sistema de segurança estruturado e permanentemente monitorado. A instituição dispõe de 84 vigilantes distribuídos entre o prédio-sede e a Hemeroteca, além de 24 câmeras operantes. Em relação à exposição “Do livro ao museu: MAM São Paulo e a Biblioteca Mário de Andrade”, a pasta garantiu que estava integralmente coberta por seguro do tipo “All Risks”, a modalidade de proteção máxima disponível no mercado, concedida após uma criteriosa análise de segurança do local expositivo. As obras de Matisse, pertencentes ao acervo de obras raras da Biblioteca, estavam em exibição exclusivamente por ocasião da mostra.

Os artistas por trás das obras roubadas

As obras roubadas da Biblioteca Mário de Andrade pertencem a dois dos maiores nomes da arte mundial: Candido Portinari e Henri Matisse, cada um com sua trajetória e impacto significativos.

Candido Portinari: o mestre brasileiro

Candido Portinari é amplamente reconhecido como um dos mais importantes pintores brasileiros de todos os tempos, com projeção internacional. Nascido em Brodowski, interior de São Paulo, Portinari deixou um legado vasto e representativo da cultura e da realidade social do Brasil. Suas obras frequentemente retratam a vida do trabalhador rural, a infância e os dilemas sociais do país. Em 2007, obras de Portinari como “O lavrador de café”, expostas no Masp, também foram alvo de criminosos, evidenciando a recorrência de roubos de arte no Brasil. As cinco gravuras de Portinari levadas da Biblioteca Mário de Andrade, do álbum “Menino de Engenho”, são mais um exemplo do valor cultural de sua produção.

Henri Matisse: ícone do modernismo

Henri Matisse, por sua vez, é um artista francês multifacetado: pintor, escultor, desenhista e gravurista. Ele é considerado um dos maiores nomes da arte moderna e um líder do Fauvismo, movimento caracterizado pelo uso de cores vibrantes e expressivas para criar obras sensoriais, explorando formas, luz e beleza de maneira revolucionária. Ao longo de sua carreira, Matisse desenvolveu estilos distintos, sempre com uma linguagem inovadora. As oito gravuras do álbum “Jazz”, de 1947, roubadas da Biblioteca Mário de Andrade, são exemplares de sua fase final, onde o artista utilizou a técnica de “papiers découpés” (papéis recortados) para criar composições coloridas e dinâmicas, representando figuras do circo, da mitologia e da dança.

Desdobramentos e futuro do patrimônio cultural

O roubo das obras da Biblioteca Mário de Andrade e as subsequentes prisões marcam um capítulo preocupante na história da segurança de bens culturais no Brasil. A complexidade do caso, envolvendo um histórico de furtos das mesmas obras de Matisse e a persistência de criminosos, exige uma reflexão profunda sobre as estratégias de proteção e recuperação de acervos. Enquanto as investigações prosseguem, com a prisão de três suspeitos, a esperança é que as preciosas gravuras de Portinari e Matisse sejam finalmente recuperadas e retornem ao seu lugar de direito, acessíveis ao público e protegidas para as futuras gerações. A atuação da Polícia e a cooperação internacional são cruciais para desmantelar as redes de crime organizado que visam o patrimônio artístico e cultural.

Perguntas frequentes

Quantas pessoas foram presas pelo roubo à Biblioteca Mário de Andrade?
Até o momento, três pessoas foram presas sob suspeita de envolvimento no roubo: uma mulher de 38 anos, Luís do Carmo (Magrão) e Felipe dos Santos Fernandes Quadra. Um quarto suspeito, que teria entrado na biblioteca, permanece foragido.

As obras de arte roubadas foram recuperadas?
Não, as oito gravuras de Henri Matisse do álbum “Jazz” e as cinco gravuras de Candido Portinari da obra “Menino de Engenho” ainda não foram recuperadas pelas autoridades.

Qual o valor estimado das obras roubadas?
Especialistas estimam que o valor de mercado das 13 obras de arte roubadas possa atingir até R$ 1 milhão.

As obras de Matisse já haviam sido roubadas antes?
Sim, as gravuras do álbum “Jazz” de Henri Matisse foram furtadas da Biblioteca Mário de Andrade entre 2004 e 2006 por um funcionário. Elas foram substituídas por falsificações e só foram recuperadas pela Polícia Federal na Argentina em 2011, retornando à biblioteca em 2015.

Acompanhe as notícias para mais informações sobre o avanço das investigações e o desfecho deste caso que impacta o patrimônio cultural brasileiro.

Fonte: https://g1.globo.com

Você Também Pode Gostar

Meningite se alastra na baixada santista: casos disparam e mortes preocupam

Compartilhe essa Matéria
Compartilhe essa MatériaA Baixada Santista, no litoral paulista, enfrenta um surto de…

Jovem morre atropelada por motorista suspeita de embriaguez em são paulo

Compartilhe essa Matéria
Compartilhe essa MatériaJovem de 25 anos perdeu a vida em um trágico…

Prefeito de campo limpo paulista gera indignação ao ridicularizar paciente com câncer

Compartilhe essa Matéria
Compartilhe essa MatériaO prefeito de Campo Limpo Paulista, Adeildo Nogueira, provocou forte…

Polícia civil desmantela rede de tráfico e prende seis em bom jesus dos perdões

Compartilhe essa Matéria
Compartilhe essa MatériaUma operação da Polícia Civil resultou na prisão de seis…