A música brasileira lamenta a perda de um de seus mais proeminentes instrumentistas. O trombonista Zé da Velha, figura lendária do choro e mestre reverenciado por gerações de músicos, faleceu na última sexta-feira do ano de 2025, aos 84 anos de idade, na cidade do Rio de Janeiro. José Alberto Rodrigues Matos, seu nome de batismo, nascido em Aracaju (SE) em 1º de junho de 1941, sucumbiu a uma infecção bacteriana, deixando um vazio imenso no cenário musical do país. Conhecido por sua técnica impecável e alma vibrante, Zé da Velha foi um elo vital entre a tradição dos grandes mestres do choro e os talentos contemporâneos, consolidando-se como um verdadeiro ás de seu instrumento.
O legado de um mestre do trombone
Uma ponte entre gerações
Zé da Velha ostentava em sua carreira o privilégio de ter compartilhado palcos e experiências com nomes que moldaram a identidade do choro no Brasil. Entre eles, destacam-se o seminal Pixinguinha (1897 – 1973), o referencial Jacob do Bandolim (1918 – 1969) e o notável Waldir Azevedo (1923 – 1980). Essa convivência com os pilares do gênero não apenas forjou sua própria maestria, mas também o posicionou como um guardião da essência do choro, transmitindo seu conhecimento e paixão para as novas gerações. Sua jornada artística começou a tomar forma nos anos 1950, quando integrou o Conjunto Velha Guarda ao lado de figuras históricas como Donga (1889 – 1974) e o próprio Pixinguinha. Foi nesse período que José Alberto Rodrigues Matos ganhou o apelido de “Zé da Velha Guarda”, posteriormente abreviado para o nome artístico pelo qual seria imortalizado: Zé da Velha. Sua habilidade e profundo respeito pela tradição o transformaram em uma ponte viva entre a era de ouro do choro e o seu contínuo florescimento.
Ao longo de mais de 60 anos de dedicação à música, Zé da Velha se destacou pela versatilidade e presença marcante em diversos projetos. A partir dos anos 1970, sua trajetória incluiu passagens por renomados conjuntos como o Sambalândia, a Orquestra Gentil Guedes e os grupos Chapéu de Palha e Suvaco de Cobra. Em cada um desses projetos, ele demonstrou não apenas seu domínio técnico do trombone, mas também uma sensibilidade musical que enriquecia qualquer formação, independentemente do estilo ou da proposta. Sua performance era sempre um espetáculo de agilidade, técnica e improvisos, características que o tornaram uma referência incontestável.
A parceria inesquecível com Silvério Pontes
A discografia de uma dupla de sucesso
Um dos capítulos mais brilhantes da carreira de Zé da Velha foi, sem dúvida, a duradoura e aclamada parceria com o trompetista fluminense Silvério Pontes. A afinada dupla, formada em 1986, iniciou sua discografia na década de 1990, conquistando um público fiel e a crítica especializada. O primeiro álbum, “Só gafieira” (1995), lançado há 30 anos, foi um marco no nicho da música instrumental, solidificando a identidade sonora do duo. O sucesso foi tamanho que a eles seguiram-se outros cinco álbuns igualmente aclamados: “Tudo dança” (1998), “Ele & eu” (2000), “Samba instrumental” (2003), “Só Pixinguinha” (2006) e “Ouro e prata” (2012).
A química musical entre Zé da Velha e Silvério Pontes era tão singular que a dupla ficou carinhosamente conhecida como “a menor big band do mundo”. Esse título, aliás, foi apropriado para a biografia lançada em 2016, que traça o percurso de ambos no vibrante circuito da música instrumental brasileira. A agilidade nos improvisos e a profunda sintonia entre trombone e trompete eram a marca registrada de suas performances, que encantavam plateias por todo o Brasil. Silvério Pontes, em um texto emocionado divulgado em rede social, expressou a dimensão da influência de Zé da Velha em sua vida e carreira: “Hoje me despeço do meu pai musical. Foi com o mestre Zé da Velha que comecei a entender o que era tocar com a alma e o coração, servindo à música. Zé da Velha me ensinou a tocar Choro, mas, principalmente, me ensinou a ser. A respeitar a música, a tradição, o silêncio entre as notas. A tocar com o coração arrepiado”. Essas palavras sublinham não apenas a técnica assombrosa do trombonista, mas também seu papel como mentor e guia espiritual para outros artistas.
O adeus a um ícone da música brasileira
Os últimos anos e o impacto da perda
Nos últimos sete anos, Zé da Velha esteve afastado dos palcos e estúdios devido a problemas de saúde que se agravaram progressivamente. O ano de 2025 foi particularmente desafiador, com o músico enfrentando duas pneumonias, que debilitaram ainda mais sua condição. O falecimento, decorrente de uma infecção bacteriana, encerra uma trajetória de vida e arte de 84 anos, dos quais mais de seis décadas foram dedicadas à música e, em especial, à preservação e inovação do choro.
A partida de Zé da Velha engrossa, lamentavelmente, a lista de artistas singulares e insubstituíveis que deixaram o cenário musical brasileiro ao longo de 2025. Sua ausência será profundamente sentida não apenas pelos fãs do choro, mas por toda a comunidade artística e cultural do país. Ele foi um músico de técnica assombrosa, cuja paixão e dedicação elevaram o trombone a um patamar de destaque no choro, inspirando e formando inúmeros talentos. A memória de Zé da Velha permanecerá viva através de sua vasta discografia, de suas icônicas parcerias e do legado imaterial que deixou para a música instrumental brasileira.
Conclusão
A partida de Zé da Velha representa uma perda irreparável para a música brasileira. Sua contribuição ao choro, como instrumentista virtuoso, mentor e guardião de uma tradição, é inestimável. Ao longo de sua vida, ele não apenas tocou ao lado de lendas, mas também se tornou uma lenda por direito próprio, um elo fundamental entre as gerações passadas e futuras do choro. Seu legado transcende as notas e os ritmos, ecoando no coração de cada músico que ele inspirou e em cada melodia que ajudou a eternizar. A maestria de Zé da Velha, marcada pela alma e pelo coração, permanecerá como um farol para o choro, um lembrete do poder da arte de conectar, emocionar e transformar.
FAQ
Quem foi Zé da Velha?
Zé da Velha, nome artístico de José Alberto Rodrigues Matos, foi um renomado trombonista sergipano (1941-2025) considerado um dos maiores nomes do choro brasileiro. Ele foi conhecido por sua técnica excepcional, suas parcerias com lendas da música e seu papel como mentor de novas gerações.
Com quais grandes nomes da música brasileira Zé da Velha tocou?
Ele teve o privilégio de tocar com mestres como Pixinguinha, Jacob do Bandolim e Waldir Azevedo. Nos anos 1950, integrou o Conjunto Velha Guarda ao lado de Donga e Pixinguinha, o que lhe rendeu o apelido “Zé da Velha Guarda”.
Qual a principal parceria musical de Zé da Velha?
Sua parceria mais icônica e duradoura foi com o trompetista Silvério Pontes, formada em 1986. Juntos, lançaram seis álbuns de sucesso e foram apelidados de “a menor big band do mundo”, devido à sua habilidade e sintonia.
Qual a causa da morte de Zé da Velha?
Zé da Velha faleceu em 26 de dezembro de 2025, aos 84 anos, na cidade do Rio de Janeiro, em decorrência de uma infecção bacteriana. Ele já enfrentava problemas de saúde nos últimos sete anos, agravados em 2025 por duas pneumonias.
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Fonte: https://g1.globo.com
