© Marcelo Camargo/Agência Brasil
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A transição na liderança do Ministério da Fazenda trouxe Dario Durigan para o comando da equipe econômica em um cenário de intensa pressão sobre as finanças públicas do Brasil. Em suas primeiras semanas, o novo ministro se depara com um complexo entrelaçamento de desafios fiscais estruturais, herdados da gestão anterior de Fernando Haddad, e demandas emergenciais, muitas delas potencializadas pelo ano eleitoral que se aproxima. A gestão atual é marcada pela necessidade de equilibrar as contas e restabelecer a confiança do mercado, ao mesmo tempo em que lida com as expectativas da sociedade e as flutuações da economia global.

O Cenário Fiscal e as Primeiras Medidas Restritivas

Ao assumir o cargo, Durigan herdou uma situação fiscal delicada, que exige atenção imediata. Analistas econômicos apontam para a necessidade premente de o governo cumprir as metas estabelecidas no arcabouço fiscal, o que demanda ações concretas para conter o avanço das despesas. Uma das primeiras iniciativas do ministro foi o anúncio de um bloqueio de R$ 1,6 bilhão no Orçamento de 2026. Embora considerado modesto frente à magnitude do desafio, essa medida é fundamental para acomodar o crescimento das despesas obrigatórias dentro do teto de 2,5% de crescimento real anual, estipulado acima da inflação.

As projeções oficiais da equipe econômica indicam um superávit primário de apenas R$ 3,5 bilhões. No entanto, uma análise mais abrangente, que incorpora precatórios e outros gastos que não se enquadram diretamente no arcabouço fiscal, revela uma previsão governamental de déficit primário de R$ 59,8 bilhões. Essa disparidade sublinha a complexidade da situação e a dificuldade em gerar resultados fiscais positivos sem uma reforma mais profunda e consistente nas contas públicas.

Iniciativas Emergenciais e Novas Fontes de Pressão Orçamentária

Paralelamente aos esforços de contenção de gastos, o Ministério da Fazenda está articulando medidas com impacto imediato, muitas delas com potencial de gerar novas pressões sobre o orçamento. Uma das propostas mais aguardadas é a criação de um subsídio para o diesel importado, visando mitigar a alta dos combustíveis em um contexto de elevação dos preços internacionais do petróleo. A medida provisória em questão prevê um subsídio de R$ 1,20 por litro, com um custo estimado de R$ 3 bilhões, a ser dividido entre a União e os estados, e sua implementação dependeu do retorno presidencial de viagens recentes.

Outro foco da pasta é o combate à crescente inadimplência das famílias brasileiras, que já afeta mais de 27% de sua renda mensal, conforme dados do Banco Central. Um pacote de medidas está em elaboração para enfrentar essa questão. A depender de sua formulação, este pacote pode não gerar custos diretos se envolver apenas renegociações de crédito. Contudo, a inclusão de subsídios diretos ao crédito, caso ocorra, representaria uma nova despesa para as contas públicas. Além disso, a possível redução da 'taxa das blusinhas' – a alíquota de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 – durante o período eleitoral também emerge como um fator que poderia impactar a arrecadação, que no ano anterior gerou R$ 5 bilhões e contribuiu para o cumprimento da meta fiscal.

Modernização Tributária e Perspectivas de Simplificação

Em um âmbito mais estrutural, o ministro Durigan propôs avanços na simplificação do sistema tributário, destacando a automatização da declaração do Imposto de Renda. Esta iniciativa tem como objetivo principal reduzir a burocracia e aprimorar a atual declaração pré-preenchida, representando um passo em direção à modernização fiscal. É importante ressaltar que essa medida não implica em diminuição das receitas governamentais, focando exclusivamente na eficiência administrativa e na facilitação para o contribuinte.

A Crise de Credibilidade Fiscal e o Legado de Metas Ambiciosas

A análise de especialistas corrobora a gravidade do cenário fiscal. A doutora em Economia Virene Matesco, professora da Fundação Getulio Vargas (FGV), aponta uma 'crise de credibilidade fiscal' como um dos maiores obstáculos. Segundo ela, a dificuldade do governo em cumprir as próprias metas estabelecidas no arcabouço fiscal, aliada à fragilidade do mesmo e ao crescimento da dívida pública para 78,7% do PIB, compromete a confiança na política econômica. Essa situação limita a capacidade de manobra do ministro e afeta o espaço para investimentos, contribuindo para um cenário de baixo crescimento econômico e um desequilíbrio notável entre despesas com juros e aportes em setores produtivos.

O economista André Nassif, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), complementa essa perspectiva, argumentando que parte das dificuldades atuais deriva de metas fiscais excessivamente ambiciosas definidas no início da gestão anterior. Inicialmente, o governo almejava um déficit zero em 2024 e superávits primários crescentes nos anos seguintes. A revisão dessas metas na LDO de 2025 – prolongando o déficit zero para 2025 e reduzindo o superávit para 2026 – gerou mal-estar no mercado, evidenciando a percepção de uma trajetória fiscal instável e a necessidade de ajustar as expectativas à realidade econômica.

Conclusão: O Desafio de Equilibrar Prioridades em um Cenário Complexo

Diante deste panorama, Dario Durigan tem a desafiadora missão de navegar entre as pressões imediatas de um ano pré-eleitoral, a necessidade de estabilizar as contas públicas a longo prazo e a urgência de restaurar a credibilidade fiscal. O sucesso de sua gestão dependerá da capacidade de implementar medidas eficazes que promovam o equilíbrio fiscal sem comprometer o crescimento econômico e o bem-estar social, ao mesmo tempo em que aborda as questões estruturais que persistem na economia brasileira. A conciliação de uma agenda de contenção com demandas por novos gastos e a busca por simplificação tributária definem a complexa pauta do novo ministro da Fazenda.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br