© Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Brasília, desde sua concepção, sempre desafiou a capacidade de ser plenamente descrita em palavras. O próprio Juscelino Kubitschek, em seu discurso inaugural há mais de seis décadas, confessou a dificuldade de encontrar os termos exatos para expressar a grandiosidade e o significado da nova capital. Hoje, essa essência única e complexa continua a inspirar uma nova geração de artistas que, longe dos verbos e adjetivos, encontram em outras linguagens a forma mais autêntica de narrar a história, a cultura e o espírito “candango” da cidade. Eles traduzem Brasília através do movimento, do ritmo e da forma, revelando camadas profundas de sua identidade sem pronunciar uma única palavra.

Mímica: A Voz Silenciosa das Experiências de Brasília

Entre os que decifram Brasília sem palavras está o mímico Miqueias Paz. Com 62 anos, e tendo chegado à capital aos cinco, Miqueias faz do corpo o seu principal instrumento narrativo. Seus gestos e silêncios encenam as nuances da cidade, desde as desigualdades sociais até a bravura dos migrantes que construíram e ainda constroem a metrópole. Sua arte nasceu da própria vivência periférica e da observação da rotina de uma capital em constante transformação.

Arte e Ativismo: Contando a História Candanga

A trajetória artística de Miqueias Paz começou na adolescência, em Taguatinga, influenciado por companhias teatrais que visitavam a jovem capital. Seus primeiros espetáculos, como “Sonho de um Retirante” e “História do Homem”, na década de 1980, já abordavam as experiências dos imigrantes e das comunidades periféricas. Miqueias levou o teatro para além dos palcos, alcançando ruas e ocupações, usando a mímica como ferramenta de conscientização e denúncia social. Ele recorda que a encenação física o tornou alvo de microviolências, como abordagens policiais frequentes, mas isso apenas reforçou o eixo de seu trabalho: expressar as realidades vividas, como a falta de recursos e o transporte público lotado.

Em 1984, sua visibilidade cresceu ao celebrar o fim da ditadura militar com um gesto de coração na rampa do Congresso, tornando-se um símbolo para os movimentos sociais. Hoje, Miqueias Paz dedica-se ao Mimo, seu próprio teatro na comunidade periférica 26 de Setembro, um espaço que acolhe e valoriza artistas ambulantes da capital, mantendo viva a chama de uma arte que fala sem precisar de voz.

Samba Pisado: O Ritmo Inventado para a Capital Inventada

A complexidade de Brasília também ecoa nos ritmos do grupo “Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro”, liderado pelo pernambucano Tico Magalhães. Sob o “assombro” do Cerrado e da história da capital, Tico criou o “samba pisado”, um ritmo inédito que busca dar uma tradição musical a uma cidade que nasceu da invenção e do planejamento. A ideia era forjar uma brincadeira, uma nova mitologia com histórias, figuras e festejos próprios, oferecendo um pulso, um coração e uma batida que fossem tão originais quanto a própria Brasília.

Diáspora Brasileira em Harmonia

O samba pisado é uma fusão rica de influências, inspirando-se em sons nordestinos como o cavalo marinho, o maracatu nação de baque solto e de baque virado, mas incorporando muitos outros ritmos. Tico Magalhães destaca que Brasília é um território de cruzamentos, onde diversos povos indígenas já habitavam e onde, posteriormente, migrantes de todo o Brasil se encontraram. Essa confluência cultural se reflete na música do Seu Estrelo, que assume e oferece características da cidade, vendo-a como uma pequena diáspora brasileira. Para ele, “quando você junta gente de muito lugar, a cidade começa a apresentar suas próprias tradições”, e o grupo é uma expressão vibrante dessa junção, onde “a cidade inventa a gente e a gente inventa a cidade”.

Arquitetura Vestível: Brasília nas Pistas e Passarelas

A arquitetura icônica de Brasília também se transforma em arte por meio da moda, pelas mãos dos estilistas Mackenzo, de 27 anos, de Samambaia, e Felipe Manzoli, de 29, de Planaltina. Este casal de criadores, nascidos em regiões administrativas periféricas, literalmente traduz os espaços arquitetônicos da capital em peças de vestuário, celebrando a identidade visual da cidade de uma forma inovadora.

Engenharia da Moda Inspirada no Plano Piloto

Felipe aprendeu a arte da costura com a avó aos dez anos, enquanto Mackenzo, também músico, arriscava-se em croquis audaciosos, inspirados pelas paisagens que observava da janela do ônibus. A paixão pela arquitetura de Brasília é profunda para ambos, com Mackenzo mencionando a conexão familiar com a construção da cidade, através de tias baianas que trabalharam com o próprio Juscelino Kubitschek. Eles defendem que a produção de uma peça de vestuário exige saberes quase arquitetônicos, lidando com “terrenos” retos ou curvilíneos – o corpo humano – que são a “engenharia da peça”. Assim, a moda se torna uma extensão da própria concepção urbanística de Brasília, onde cada costura e corte remetem à genialidade de seus traços e formas.

A Pluralidade de Brasília Expressa em Arte

A capital federal, frequentemente idealizada por sua arquitetura moderna e planejamento visionário, revela-se ainda mais rica e multifacetada através das expressões de seus artistas. Miqueias Paz, com sua mímica eloquente, Tico Magalhães e o Seu Estrelo, com seus ritmos inovadores, e os estilistas Mackenzo e Felipe Manzoli, com suas criações que vestem a cidade, demonstram a capacidade de traduzir a complexidade de Brasília para além das palavras. Eles capturam a alma “candanga” – a resiliência, a diversidade, a inventividade e os desafios – e a transformam em linguagens universais que ressoam com a história e o futuro dessa cidade única. Essa rica tapeçaria cultural não apenas enriquece o patrimônio de Brasília, mas também reafirma a arte como uma ponte essencial para a compreensão de sua identidade em constante evolução.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br

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