Uma onda crescente de fraudes digitais tem causado prejuízos bilionários a cidadãos brasileiros que aguardam resultados de processos judiciais. Criminosos, travestidos de advogados, prometem a liberação de valores pendentes mediante o pagamento adiantado de taxas, lesando financeiramente as vítimas. Nos últimos três anos, estima-se que os golpes tenham causado um rombo de R$ 2,8 bilhões.
O estratagema criminoso evoluiu de um simples estelionato para uma operação sofisticada. Quadrilhas obtêm acesso, por meios ilícitos, a sistemas online da Justiça, utilizando credenciais de advogados. A presidente da OAB-RJ, Ana Tereza Basílio, ressalta que a vasta maioria dos processos tramita eletronicamente, expondo dados de contato das partes envolvidas em ações que não correm em segredo de justiça. Munidos dessas informações, os golpistas direcionam seus esforços aos valores que as vítimas estão na iminência de receber.
Em Brasília, o servidor público Gilberto Alves foi enganado ao receber uma mensagem via WhatsApp com a foto de seu advogado. A mensagem informava sobre uma suposta vitória judicial e solicitava o pagamento de uma taxa para a liberação dos recursos. Alves efetuou o pagamento, percebendo o golpe apenas depois, quando notou a diferença no número de contato.
No Rio Grande do Sul, uma aposentada perdeu R$ 255 mil ao cair em um golpe semelhante. A vítima, que contava com um salário mínimo e aguardava o recebimento de aproximadamente R$ 7 mil referente à pensão por morte do marido, recebeu mensagens supostamente enviadas pelo escritório de sua advogada. Os criminosos, identificando-se como “Doutora Leandra” e um cúmplice, exigiram depósitos sucessivos para liberar o dinheiro, esgotando as economias da aposentada.
A advogada Leandra Wichmann, cuja identidade foi utilizada pelos golpistas, relatou que os criminosos obtiveram cópias da procuração em processos na Justiça Federal e falsificaram documentos em seu nome.
As investigações policiais revelam que credenciais de advogados são comercializadas online, com preços a partir de R$ 200, permitindo o acesso a informações sigilosas. O delegado João Vitor Herédia destaca que essa apropriação de dados confere credibilidade aos golpistas. Há também indícios de ligação entre o esquema e facções criminosas.
Em julho, Henrique “Oliver” Vargas da Silva, apontado como o principal fornecedor de logins e senhas para as quadrilhas, foi preso no Espírito Santo.
As autoridades alertam para o uso crescente de inteligência artificial para aprimorar as fraudes, incluindo a clonagem de vozes de advogados e a simulação de números de telefone reais.
Diante da escalada dos golpes, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) anunciou a implementação de uma camada extra de segurança nas plataformas digitais da Justiça a partir de novembro, exigindo autenticação similar à utilizada por bancos.
Advogados e especialistas recomendam desconfiar de contatos inesperados por mensagem ou ligação, confirmar informações diretamente com o advogado por meio de canais de comunicação já conhecidos e desconfiar de solicitações urgentes de pagamento. É crucial lembrar que o Poder Judiciário não utiliza PIX ou boletos bancários para liberar valores, sendo o pagamento realizado por meio de alvará judicial. A orientação final é nunca clicar em links nem efetuar pagamentos sem confirmar as informações diretamente com o advogado.
Fonte: g1.globo.com
