O ritmo constante das máquinas, o aroma característico da cola e o brilho singular do couro compõem o cotidiano de profissionais que mantêm viva uma das atividades mais antigas e indispensáveis do mundo: a arte da sapataria. Em uma era marcada pelo descartável, esses artesãos continuam a costurar histórias, restaurar lembranças e provar que o valor do trabalho manual reside no cuidado e na paixão de quem o realiza.
Em Presidente Prudente, interior de São Paulo, nomes como Jorge, Claudecir e Laura representam a resistência de um ofício que transcendeu gerações e permanece resiliente, mesmo diante da modernização e da crescente desvalorização do trabalho artesanal.
Jorge Luiz de Lima Araujo, natural do Rio Grande do Norte, recorda sua trajetória desde a infância, quando acompanhava seu pai, um artesão de calçados, em oficinas e grandes marcas da região. “A vida toda foi dentro do mercado de calçados”, afirma. No início, tudo era feito de forma totalmente manual. “Não existiam as máquinas modernas que temos hoje. A gente fazia ferramentas com o que tinha. Eu lembro de usar tampa de lata de leite em pó furada para lixar o couro”, relembra.
Segundo Jorge, a tecnologia trouxe facilidades, mas também contribuiu para a cultura do descarte. “Antes, a gente trabalhava para restaurar, para dar vida ao que tinha valor. Hoje, muita coisa é produzida de forma rápida e barata. Mas ainda existe material de qualidade que merece ser restaurado, não só consertado. Isso é devolver a história para os pés da pessoa.”
Ele recorda casos marcantes, como o de noivas que precisavam de sapatos sob medida. A possibilidade de atender clientes com necessidades especiais e pedidos exclusivos é o que o motiva. “Uma peça que marcou um tempo atrás foi um sapato de noiva de número 32 ou 31, de salto alto. A menina morava em Dracena e conseguimos tirar a medida dela, corrigir, fazer a forma e alcançar essa condição para que ela pudesse realizar o sonho dela”, conta. Outra história que o tocou foi a de uma mulher que nunca pôde usar botas devido à grossura da perna. “Nós trabalhamos, tiramos a medida e produzimos a peça para que pudesse vir de encontro à necessidade dela. Naquele momento eu vi uma mulher madura chorar de alegria pela primeira vez na vida ter possibilidade de calçar uma bota de maneira que ficasse confortável para ela.”
Para Jorge, a falta de valorização e a escassez de material de qualidade são os principais desafios da profissão. “O mercado está muito descartável. Existe trabalho, mas faltam profissionais. Se houvesse uma escola de formação, haveria muito campo de trabalho. O sapateiro sempre terá serviço, mas a profissão corre o risco de desaparecer por falta de interesse, não por falta de serviço.”
Claudecir Dogna Mané, por sua vez, iniciou sua jornada na sapataria aos 12 anos, após migrar da lavoura para a cidade. Com 54 anos dedicados ao ofício, ele se dedica a consertos e restaurações. Sua esposa, Laura Alonso Luque Dogna, juntou-se a ele após o casamento. “Eu era professora, mas quando tive meu filho, parei de lecionar. Comecei a ajudar o Claudecir e me apaixonei pela profissão. Fui aprendendo, cuidando da parte de acabamento, revitalização e pintura dos calçados”, detalha.
Juntos há cerca de duas décadas, Claudecir e Laura dividem as tarefas na oficina. Ele se concentra na parte mais pesada, enquanto ela cuida do atendimento e dos detalhes finais. “Enquanto ele conserta, eu restauro a beleza”, define Laura.
A modernização trouxe seus próprios desafios. “Hoje tudo é aparência. As pessoas olham mais para a estética do que para a qualidade. Querem o sapato novo, não o restaurado”, lamenta Laura. Claudecir complementa: “É muito sintético, muito plástico. Às vezes o sapato nem dá condições de arrumar. A cola não segura, o material é fraco. E mesmo avisando, a pessoa quer um resultado que nem sempre é possível. Ainda assim, a gente faz com carinho.”
Eles enfatizam a distinção entre a produção industrial e o trabalho artesanal. “Tudo é mecanizado na indústria. Aqui, cada peça é feita à mão, com corte, colagem e acabamento detalhados. É demorado, mas o resultado é um produto especial, feito com cuidado e dedicação. O que sai das nossas mãos é único”, afirma Claudecir.
O relacionamento com os clientes vai além do balcão da oficina. “Tem gente que atendi quando era criança e hoje atendo os netos”, conta Claudecir. Laura acrescenta: “A gente tem clientes que viraram amigos. É uma relação de confiança. Eles sabem que aqui o trabalho é feito com amor e respeito. O calçado é algo pessoal, faz parte da história da pessoa.”
Apesar dos desafios impostos pela produção em massa, esses profissionais mantêm viva a tradição do trabalho manual. Jorge resume: “O artesão é uma dádiva. Quando você pega um couro e transforma em algo novo, sente orgulho. O que aprendi com meu pai me permite viver em qualquer lugar, porque o que vem das mãos é eterno.” Claudecir e Laura reforçam a mensagem: “O sapateiro sempre vai existir. Pode diminuir a quantidade de profissionais, mas a necessidade de restaurar, ajustar e criar produtos sob medida nunca vai acabar. Para quem quer entrar na profissão, é só ter vontade, dedicação e amor pelo que faz.”
Celebrando o Dia do Sapateiro, esses artesãos seguem firmes, não apenas consertando calçados, mas restaurando histórias, memórias e o respeito por aqueles que dedicam suas vidas ao trabalho manual.
Fonte: g1.globo.com

