A cultura brasileira está de luto com o falecimento de Haroldo Costa, um dos nomes mais emblemáticos e multifacetados de sua história. Aos 95 anos, o ator, diretor, produtor, comentarista de carnaval e autor nos deixou no último sábado, 13 de janeiro, no Rio de Janeiro, após uma vida dedicada às artes e à exaltação da identidade nacional. Nesta segunda-feira, 15 de janeiro, seu corpo está sendo velado no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, Zona Portuária da capital fluminense, recebendo as últimas homenagens de familiares, amigos e admiradores. O sepultamento está previsto para acontecer às 14h, marcando a despedida final de uma figura que transcendeu gerações e contribuiu imensamente para o patrimônio artístico e cultural do país, deixando um legado duradouro em diversas áreas do fazer artístico.
Uma trajetória pioneira nas artes cênicas
Nascido na capital fluminense, Haroldo Costa iniciou sua jornada profissional no universo das artes, destacando-se por sua versatilidade e talento. Seu percurso começou no teatro, um terreno fértil para seu pioneirismo e para a afirmação de sua identidade artística. Foi no palco que ele pavimentou parte de seu caminho, abrindo portas e quebrando barreiras em um período desafiador para artistas negros no Brasil. Sua atuação não se limitou a interpretação; ele também brilhou como diretor e produtor, moldando espetáculos e televisivos que se tornaram marcos na cultura nacional.
O legado do Teatro Experimental do Negro e o palco do Municipal
Haroldo Costa deu seus primeiros passos como ator profissional no renomado Teatro Experimental do Negro (TEN), uma instituição fundamental fundada por Abdias do Nascimento. O TEN, criado em 1944, foi um movimento de vanguarda que buscava combater o racismo, valorizar a cultura negra e promover a ascensão social de atores afro-brasileiros. Nesse contexto, Haroldo Costa participou de montagens importantes, como “O Filho Pródigo”, onde teve a oportunidade de trabalhar ao lado de talentos que, assim como ele, fariam história na televisão e no cinema brasileiros, incluindo Ruth de Souza, Grande Otelo e Milton Gonçalves.
Contudo, foi no teatro que ele obteve um de seus primeiros grandes êxitos profissionais e um marco de representatividade. Haroldo Costa interpretou o protagonista da aclamada peça “Orfeu da Conceição”, de Vinicius de Moraes. Sua performance não apenas o consolidou como ator de destaque, mas também o tornou o primeiro ator negro a pisar e atuar no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, um feito histórico que abriu caminho para futuras gerações de artistas.
Sua incursão na televisão também foi notável. Na TV Globo, ele trabalhou como diretor de musicais e de programas de auditório, exercendo sua expertise e liderança criativa. Ao longo de sua carreira na emissora, dirigiu grandes nomes do entretenimento brasileiro, como Dercy Gonçalves, Chacrinha e Moacyr Franco, contribuindo para a construção de uma linguagem televisiva que cativou milhões de espectadores. Em 1999, ele retornou às telinhas como ator na minissérie “Chiquinha Gonzaga”, de Lauro César Muniz, interpretando Raymundo da Conceição. Anos mais tarde, em 2012, voltou a atuar em outra minissérie da mesma emissora, “Suburbia”, de Paulo Lins e Luiz Fernando Carvalho, no papel de Aloysio, demonstrando sua paixão e talento duradouros pela interpretação.
A paixão pelo carnaval e o reconhecimento na televisão
Além de sua indelével marca nas artes cênicas e televisivas, Haroldo Costa nutria uma profunda paixão pelo carnaval, um universo que ele considerava a verdadeira essência do brasileiro. Sua conexão com a festa mais popular do país não era apenas profissional, mas intrínseca à sua própria identidade e história familiar. Esse amor pelo carnaval o levou a explorá-lo em diversas facetas, de jurado a autor, transformando-o em um dos maiores estudiosos e divulgadores dessa manifestação cultural.
De jurado a autor: a essência do carnaval em suas obras
A relação de Haroldo Costa com o carnaval começou cedo, influenciada por seu pai, que era carnavalesco. Ele expressava que o carnaval era “uma coisa essencial que define a gente como brasileiro”, acreditando piamente que a mais correta definição da identidade nacional era feita através dessa celebração. Sua expertise e profundo conhecimento da festa o levaram a integrar o corpo oficial de jurados dos desfiles organizados pela Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), uma função de grande responsabilidade e prestígio. Em 1963, no entanto, abriu mão dessa posição após um desfile marcante da agremiação Acadêmicos do Salgueiro, da qual se tornou um fervoroso torcedor e parte da história. Haroldo Costa também foi um membro respeitado do corpo de jurados do Estandarte de Ouro, um dos prêmios mais importantes e cobiçados do carnaval carioca, que reconhece o que há de melhor nos desfiles das escolas de samba.
Sua contribuição para o registro e a valorização do carnaval se estendeu à literatura. Haroldo Costa é autor de diversos livros que se tornaram referências sobre o carnaval carioca e a cultura musical brasileira. Entre suas obras notáveis estão “Salgueiro: Academia de Samba” (1984), que explora a história e o legado de uma das mais emblemáticas escolas de samba; “100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro” (2001), um compêndio detalhado sobre a evolução da festa na capital fluminense; e “Ernesto Nazareth – Pianeiro do Brasil” (2005), que mergulha na vida e obra de um dos maiores compositores brasileiros. Além de sua produção literária, ele também foi o responsável pela produção de grandes espetáculos musicais dedicados ao samba, celebrando a riqueza desse gênero musical.
Mesmo em idade avançada, Haroldo Costa mantinha-se ativo e engajado no cenário cultural. Em 2023, assinou a curadoria da exposição “Heitor dos Prazeres é meu nome”, no CCBB-Rio, ao lado de Raquel Barreto e Pablo León de La Barra. Essa mostra celebrou a vida e a obra de outro grande nome da cultura afro-brasileira, demonstrando seu compromisso contínuo com a memória e a difusão da arte nacional.
Um adeus a um mestre multiusos
A despedida de Haroldo Costa no Cemitério São Francisco Xavier não é apenas o fim de um ciclo de vida, mas o encerramento de uma era para a cultura brasileira. Sua morte representa a perda de um artista completo, um intelectual dedicado e um ativista incansável pela valorização da negritude e das manifestações culturais genuínas do Brasil. Haroldo Costa deixa um legado multifacetado que se estende por décadas, influenciando gerações de artistas, estudiosos e admiradores. Sua paixão pelo teatro, pelo cinema, pela televisão e, sobretudo, pelo carnaval, permanecerá viva na memória e nas obras que nos deixou. Ele foi uma ponte entre o passado e o futuro, um guardião das tradições e um inovador que soube redefinir a presença negra nas artes. Seu sepultamento, um momento de dor e reflexão, marca o adeus a uma figura cuja trajetória será eternamente celebrada.
FAQ
Quem foi Haroldo Costa?
Haroldo Costa foi um influente ator, diretor, produtor, comentarista de carnaval e autor brasileiro. Reconhecido por sua versatilidade e pioneirismo, teve uma carreira que abrangeu o teatro, a televisão e a literatura, com um foco especial na cultura afro-brasileira e no carnaval do Rio de Janeiro.
Qual foi a importância de Haroldo Costa para o carnaval brasileiro?
Haroldo Costa foi uma figura central no carnaval brasileiro. Atuou como jurado da Liesa e do Estandarte de Ouro, e era um profundo estudioso da festa. Ele é autor de livros importantes como “Salgueiro: Academia de Samba” e “100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro”, nos quais documentou e celebrou a história e a essência do carnaval. Para ele, a festa era a “definição mais correta do brasileiro”.
Em quais trabalhos de destaque Haroldo Costa atuou ou dirigiu?
No teatro, foi o primeiro ator negro a atuar no Theatro Municipal do Rio, como protagonista de “Orfeu da Conceição”, e participou do Teatro Experimental do Negro. Na TV Globo, dirigiu musicais e programas de auditório com estrelas como Dercy Gonçalves e Chacrinha. Como ator, destacou-se nas minisséries “Chiquinha Gonzaga” (1999) e “Suburbia” (2012).
Onde Haroldo Costa foi velado e sepultado?
O corpo de Haroldo Costa foi velado no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, Zona Portuária do Rio de Janeiro. O sepultamento também ocorreu no mesmo local, nesta segunda-feira, 15 de janeiro.
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Fonte: https://g1.globo.com

