Uma fazenda histórica no interior de São Paulo, outrora palco de desmatamento para expansão cafeeira, ressurge como um refúgio crucial para a biodiversidade local. A Fazenda São João, com registros datados de 1895, e que já foi sub-sede de uma vasta propriedade abrangendo municípios como Agudos, Cabrália Paulista, Paulistânia e Piratininga, passou por uma transformação notável ao longo do último século.
Originalmente pertencente à família Rodrigues Alves, de grande influência econômica e política no Brasil do século XIX e início do século XX, a área foi inicialmente desmatada para a erradicação de comunidades indígenas Kaingang e para o cultivo extensivo de café. Inclusive, os conflitos com os indígenas deram nome ao rio Batalha.
Hoje, dos seus aproximadamente 600 hectares, cerca de 35% são dedicados à reserva legal, áreas de preservação permanente e remanescentes florestais. O biólogo Guilherme Amaral, representante da atual família proprietária, destaca que a fazenda abriga mais de 20 nascentes que abastecem o rio Batalha, vital para a região de Bauru. Inserida em uma área de Mata Atlântica, com predominância de floresta estacional semi-decidual, a propriedade supera as exigências do Código Florestal em termos de área de reserva.
Desde que se estabeleceu na fazenda há cerca de 20 anos, Guilherme Amaral monitora as espécies de animais que habitam a mata preservada, incluindo a onça-parda, o tamanduá-bandeira, o gato-mourisco, o gato-do-mato e a jaguatirica. A área também se destaca pela riqueza em aves, com quase uma centena de espécies, incluindo algumas migratórias como o cabeça-seca.
O Museu do Café, situado na Fazenda São João, foi recentemente aprovado no Sistema Estadual de Museus, sinalizando seu crescente papel social e de interesse público. Em parceria com órgãos ambientais, a fazenda se tornou um local estratégico para a soltura de animais silvestres apreendidos na região, como tamanduás, maritacas, papagaios, coleirinhos e canários-da-terra. Segundo relatos, muitos desses animais permanecem ou retornam à área, contribuindo para o aumento populacional de espécies como o papagaio-verdadeiro.
A Fazenda São João e o Museu do Café também desenvolvem atividades de educação ambiental para estudantes de todos os níveis, abordando temas como a extinção de espécies, a conservação e a posse responsável de animais domésticos. A “trilha do mico”, implementada em parceria com o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPE) e financiada pela Disney Foundation, ilustra a problemática da extinção, lembrando a antiga presença do mico-leão-preto na área.
Assim, a fazenda, que no passado exemplificou o impacto da agricultura sobre o meio ambiente, hoje demonstra o potencial de restauração e conservação, oferecendo um lar seguro para a fauna e flora nativas e promovendo a conscientização ambiental.
Fonte: g1.globo.com
